Topetinho vai à escola

Será que criança curte estórias de passarinho? Esta dúvida apareceu quando a Editora Melhoramentos me convidou para contar a estória do meu primeiro livro infantil, Topetinho Magnífico, em escolas de municípios paulistas, após seu lançamento, em junho de 2012.

Jornalista de formação, com experiência em jornais diários, revistas e em comunicação corporativa, eu só tinha até escrever o livro experiência em falar com adultos.

Sempre gostei de animais, especialmente os silvestres, e suas causas sempre me interessaram e tocaram. Com interesse em ciências biológicas, acabei indo para o jornalismo dada a minha paixão pela leitura e redação, e dentro do jornalismo acabei atuando em editorias ou veículos especializados em ciências, meio ambiente e agricultura.

Quando saí de um cargo executivo em uma multinacional norte-americana e em fase de guinada na vida, veio a sugestão, por parte de uma amiga que já havia publicado mais de uma centena de livros para crianças, de escrever um livro para esse público, uma vez que as escolas estavam demandando mais textos com cunho de preservação ambiental.

Bom, sabe aquela dúvida que mencionei sobre os eventos com as crianças? Pois bem, apareceu pela primeira vez. Será que eu iria me dar bem escrevendo para esse público? Eu nem filhos tive. E linguagem meio gugu-dada, que idiotiza a criança, eu não iria conseguir fazer. Acho que nem era esse o propósito da editora.

Eu nem tinha começado a observar aves, mas fui ao lançamento de um guia de aves de ornitólogos, editado pela empresa de um conhecido, e folheando o material me encantei com um beijaflorzinho muito pequeno (cerca de 4,5 cm), com um lindo topete vermelho, endêmico do Brasil e existente em nossa mata atlântica e cerrado. Foi o clique.

Pesquisas e estudos mais tarde, nascia a estória do passarinho que foi caçado por traficantes de aves silvestres, para ser vendido em feiras de grandes cidades brasileiras ou “exportado” para fora. Afinal, há gringos que criticam o Brasil por desmatar a Amazônia mas adoram desfilar com uma arara ou papagaio dos trópicos.

Entre os personagens, além do Lophornis magnificus, o Topetinho Magnífico que dá nome ao livro, outras aves bonitas ou ameaçadas, como o bicudo (grande vítima das gaiolas, em função de seu canto lindo) e o picapau-de-parnaíba (Celeus obrieni), dado como extinto até ser redescoberto no interior do Tocantins no começo dos anos 2000 cerca de oitenta anos sem ser observado.

Para tratar um tema tão sério como o comércio de animais silvestres para crianças, resolvi lançar mão de muita ação, diálogos e até humor. Não é porque o tema é sério que o texto precisa ser sisudo, né?

Mandei o texto para Editora Melhoramentos e – um pouco para a minha surpresa, sem falar na alegria – logo veio o contrato para assinar. O livro seria oferecido em escolas do ensino fundamental em todo o Brasil. Fiquei muito contente, porque seria uma oportunidade para as crianças tomarem conhecimento do tema do tráfico de animais silvestres. Mais tarde, o abordaria em outra mídia: um artigo na Folhinha, o encarte infantil que a Folha de S. Paulo publicou por anos.

Livro ilustrado com maestria por Maurício Veneza, diagramado, impresso e lançado, começaram os eventos com as crianças, em escolas que já tinham adotado o material ou que o adotariam.

Não é que a experiência com crianças foi ótima e me cativou? Taí um público que se interessa, participa, conta suas experiências (escutei muitos casos das caçadas do tio, do papagaio da avó…), dá sugestões (“Tia, por que o Topetinho, que tem asas, não vai viajar?”, “Por que o Topetinho não conhece uma Topetinha, se apaixona perdidamente e se casa?”, e por aí vai), faz perguntas.

Crianças em entidade de apoio à educação na zona sul de SP assistem a uma das palestras.

Gostei da experiência e não parei mais, levando o Topetinho e os temas da preservação ambiental e da valorização da nossa rica biodiversidade por meio das aves a escolas e/ou entidades com crianças carentes de diversos locais. Minha ideia era plantar sementinhas e sensibilizar as crianças para serem multiplicadoras dessas mensagens visando a mudar a realidade da caça e da gaiola, ainda forte em várias regiões do país, inclusive na periferia das nossas grandes cidades. Além de uma crueldade, uma forte ameaça à nossa biodiversidade.

Em uma dessas atividades, a professora organizou uma peça de teatro com o tema, representada por crianças que viviam em situação de precariedade em bairros pobres da capital paulista. Foi uma emoção! E Fábio, o menino filho de catadores de materiais recicláveis em São Paulo que viveu o Topetinho, pintou o topete de vermelho e encarnou com maestria, na forma e no conteúdo, o passarinho. A professora me contou depois que a atuação dele surpreendeu a todos, uma vez que ele costumava ser muito tímido e que quase não se expunha. Pelo visto, o Topetinho deu o clique em Fábio também. Transformador esse topetinho!

Depois de Topetinho Magnífico, eu lançaria mais dois outros livros infantis tendo aves como heróis: O Soldadinho da Caatinga (Florada Editorial, 2018) e O Tiê da Mata Atlântica (Florada, 2019). Bom, mas isso fica para uma outra coluna…

Fábio, que estuda na Unibes, em SP, encarnou o Topetinho em peça na escola.

*Este texto, de autoria de Cristina Rappa, foi publicado originalmente no portal Fauna News.

Acompanhando uma família de arirambas

Cristina Rappa

Durante a temporada de isolamento imposta pelo novo coronavírus na fazenda, no sul de Minas, pudemos observar melhor a natureza e seus movimentos, e, entre eles, acompanhar o comportamento das aves daqui. Que são muitas.

Em outras ocasiões, eu já mencionei, neste mesmo blog, a biodiversidade encontrada em Arceburgo, região de transição entre mata atlântica e cerrado onde já foram registradas, com foto e/ou som, 273 aves. Em uma caminhada pelos arredores da casa, por exemplo, não é difícil avistar cerca de 40 espécies de aves.

Cristina Rappa
Uma ariramba em busca de insetos. Reparem no bico comprido, parecendo uma agulha

Uma das espécies muito comuns por aqui e que já faz parte do nosso círculo de amigos (meu marido já as identifica pelo som), é de pássaros muitos simpáticos e vistosos, as arirambas-de-cauda-ruiva (Galbula ruficauda).

A ariramba, também conhecida como bico-de-agulha, mede cerca de 25 cm, tem um bico comprido (daí o segundo nome popular…), que lhe permite caçar bem insetos voadores, como vespas, borboletas e libélulas, que constituem seu cardápio básico. À primeira vista, para quem não a conhece, parece um beija-flor grande.

O casal costuma estar sempre junto, sendo o macho o de papo mais branco (esq.)

Costumam ser avistados em casais, sendo que o macho tem o papo mais branco do que a fêmea, e não são ariscos. Pelo contrário, acostumam-se bem à presença das pessoas. Para falar a verdade, até fazem questão de chamar a atenção dos humanos. Pelo menos, é isso que observo por aqui, toda vez que ando pelo jardim ou na borda da mata.

Há alguns anos um casal mora e faz ninhos no barranco em volta da casa aqui de Minas. O ninho da ariramba não é como um ninho comum de pássaros, como a gente costuma ver, feitos com gravetos colocados em galhos de árvores. A ave cava buracos em barrancos, onde bota os ovos e de onde entra e sai com frequência para alimentar os filhotes. Ótima solução para proteger a ninhada, enquanto pequena, de predadores, como gaviões e tucanos. Que, por sinal, são bem numerosos por aqui.

A ariramba mãe entra no ninho, feito no barranco, para alimentar os filhotes.

Esta é uma das minhas curiosidades: os filhotes. Nunca vi um. Imagino que eles devam colocar a carinha para fora do buraco para olhar o mundo em volta, e depois ensaiar seus primeiros voos. Quem sabe ainda dou sorte e vejo um, sem assustar os pais?

Enquanto escrevo esta crônica, chega uma poderosa frente fria por aqui, que baixas as temperaturas a sete graus Celsius em pleno mês de maio. O lado bom é que veio após dois dias de uma boa chuva, o que é sempre positivo para a natureza.

Mas quando a temperatura caiu fiquei três dias sem avistar o casal de arirambas. Será que estão recolhidos dentro do ninho, para se protegerem do frio, fiquei me perguntando. “Vai ver os filhotes já estavam na fase de abandonar o ninho”, tenta me consolar meu marido.

Hoje vi o macho na árvore ao lado do ninho. Pena que ele não conseguiu responder à minha dúvida.

Uma ariramba fêmea almoçando na beira da mata

Nota de atualização em 31 de maio: hoje avistei os pais em volta do ninho, caçando insetos e levando-os para dentro do buraco, para alimentar os filhotes, imagino. Fico feliz! Ainda com esperança de ver os pequenos.

A triste saga dos gambazinhos órfãos

Quem me acompanha por aqui, em outras mídias sociais, ou me conhece desde criança, sabe que adoro animais. 

Na fazenda, em Arceburgo, no sul de Minas, moram atualmente seis cachorros adotados. Já foram mais, mas foram morrendo (por mordida de cobra, ataque de ouriço, doença ou velhice, entre outros fatores) ao longo dos anos e foram sendo substituídos por outros, doados ou abandonados na estrada rural e que acolhemos.

O problema é que animais domésticos são um grande problema para a fauna silvestre. E cães em matilha agem como uma verdadeira gangue de malfeitores. Especialmente os machos, mesmo sendo castrados. É o instinto de caçadores deles, procuro racionalizar.

E não é que um dia, durante este isolamento imposto pelo coronavírus, acordo com uma gritaria dos cachorros? Constatamos, na manhã seguinte, com tristeza, o motivo da gritaria: haviam caçado e matado uma fêmea de um marsupial pertencente a de uma das quatro espécies de gambás que existem no Brasil e muito comum na região, o de orelhas-brancas.

Zeus e Trovão: parecem angelicais, mas são exímios caçadores de animais silvestres.

E o pior: estava com três filhotes, sendo que um morreu também. Recolho, sob os protestos de Jurandir, o caseiro, os dois pequenos sobreviventes e resolvo tentar criá-los. Afinal, já resgatei e cuidei de murucututu-da-barriga-amarela, carcará, filhotes de jandaia-de-testa-vermelha e de avoante. Todos com sucesso. O que me deixou meio arrogante, acreditando que sempre terei sucesso e que tudo vai dar certo. Esse excesso de otimismo muito me define.

Os gambazinhos eram muito pequenos, mas já tinham algum pelo. Pesquisa entre os biólogos do grupo de aves me leva a uma especialista que me orienta como preparar sua mamadeira e aquecê-los.

Pensei: vou alimentando-os até poder entregá-los aos cuidados de uma ONG especializada no acolhimento de animais silvestres atropelados, órfãos,  vítimas de ataques de cães ou de caça, entre outros fatores. Como a  Associação Mata Ciliar, de Jundiaí,  que conheço pessoalmente, apoio e com quem fiz contato. Mas, em época de isolamento, as entidades estão com poucos braços e não encontrei ninguém a quem pudesse  entregar os pequenos. Pensei: vou cuidando deles até poder soltá-los na natureza. Mas isso levaria uns dois meses, avaliou a bióloga que estava me orientando.  

Assim, ao longo dos dias seguintes, minha rotina era preparar a mamadeira com leite, ovos, mel e uma pitada de sal, amorná-la e dá-la aos gambazinhos. Depois massagear sua barriguinha, para que evacuassem. Em seguida, esquentar uma garrafa d’água e colocá-la dentro da caixa deles, que já tinha cobertor e um boneco do Sapo Caco, doação de Luara, neta da Rosana que trabalha na minha casa em São Paulo e que também gosta muito de animais.

O gambazinho e o sapo Caco doado pela Luara

Tive esperança de que uma das minhas quatro gatas os adotassem e passassem a produzir leite, mas tive receio de deixá-los muito tempo com elas sem minha supervisão. Vi, dias depois, um caso desses no Facebook: uma gata com uma ninhada adotou um gambazinho, que vivia pendurado no pescoço dela. O problema é que as minhas são castradas e nunca tiveram filhotes. Levaria algum tempo para despertar esse instinto maternal.

Só sei que quatro dias depois, o gambazinho menor amanheceu morto, gelado. Fiquei muito triste e me sentindo culpada. Acho que não aqueci o suficiente a caixa deles e com a entrada do outono, as noites ficaram mais frias.

Decidi me dedicar muito ao sobrevivente e não bobear com a temperatura. Era uma graça de serzinho, muito meigo, que encantou a todos, especialmente à Rosana e à Rosa, da fazenda, que já tinha me ajudado a cuidar da coruja e do gavião, o carcará que apelidei de Gumercindo.

Bom, não é que após preparar mais uma das cerca de seis mamadas do dia, constato que o pequeno tinha morrido também? Fiquei muito triste, decepcionada pelo meu fracasso. 

A bióloga me consola dizendo que é realmente muito difícil para nós humanos cuidar deles, que eles costumam viver protegidos e aquecidos dentro de uma bolsa na mãe.

Desmistificando

Por favor, não confunda “os meus” gambazinhos com aqueles gambás dos desenhos animados, brancos-e-pretos, que soltam um cheiro ruim ao se sentirem ameaçados.  Esta má fama, acredito, pode contribuir para uma injustiça contra os marsupiais.

Gambá-de-orelha-branca avistado anteriormente lá no jardim da fazenda

Estes gambás de que cuidei são os de orelha-branca (Didelphis albiventris), muito comuns em boa parte do Brasil e que se alimentam de frutas, filhotes de aves, cobras, lagartos, insetos, anfíbios e cereais. A espécie é essencial no equilíbrio de ecossistemas, tendo grande importância ecológica na natureza.

Recentemente, pesquisa feita no Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, interior de SP, mostrou que, além de atuarem na distribuição de sementes, no controle da população de cobras, carrapatos, aranhas e escorpiões, e como bioindicadores da qualidade de habitats naturais, agora revelam-se agentes polinizadores e grandes dispersores de sementes. Isso mesmo: contribuem para a fertilidade das plantas e recomposição das matas.

E cerca de um mês após o episódio do resgate dos gambazinhos, em uma manhã, caminhando na volta da passarinhada pela zona rural de Arceburgo, os cachorros Tom e Trovão, que me acompanhavam (e perturbaram até que pouco o programa), saem correndo atrás de um tatu-peba (Euphractus sexcinctus), um dos muitos animais silvestres encontrados por aqui. 

O pobre ficou imóvel de pavor e eu consegui afastar, com algum esforço, os cachorros. Ufa! Mais serzinho um salvo, para compensar o triste destino da família de gambás. A natureza agradece, a nossa saúde e bem estar, idem. Afinal, desequilíbrios na biodiversidade e uma relação inadequada com animais silvestres podem levar ao surgimento de doenças como a com que estamos convivendo agora.

Tatu-pega que Tom detectou – e assustou – no pasto.